Água de qualidade, práticas sustentáveis, consciência ambiental e financiamentos que impulsionam o desenvolvimento. Em uma terra seca, que sofre com as intempéries climáticas e as longas estiagens, cada gota de água é preciosa. Tem grande valor. Esse recurso natural vale mais do que ouro. E a fonte de onde ele brota, gerando abundância e prosperidade, transforma-se em uma riqueza imensurável. Para que essa fonte brote e garanta fartura no campo, outra fonte precisa jorrar: a dos financiamentos que incentivam boas práticas sustentáveis.
Historicamente, a escassez de água é um problema que afeta os nordestinos e, particularmente, a população do semiárido paraibano. Em todo o país, o Semiárido ocupa 12% do território nacional e abriga cerca de 28 milhões de habitantes. Com uma área de aproximadamente 969.589 km², a região abrange 1.477 municípios distribuídos por 11 estados, incluindo todo o Nordeste, o norte de Minas Gerais e partes do Espírito Santo.
As longas estiagens já comprometeram a agricultura e dizimaram rebanhos nessa região, deixando carcaças espalhadas às margens das estradas, inviabilizando cadeias produtivas e prejudicando o desenvolvimento econômico e social do estado.
Só que, mesmo em regiões com baixos índices pluviométricos, afetadas por eventos climáticos que deixam rios, açudes e barreiros secos e destroem a vegetação sob o sol causticante, a água existe. E existe em abundância. Fonte de esperança, sonhos e riqueza no campo, a água está no subsolo, escondida entre camadas de sal. E brota agora como minas borbulhantes, com a ajuda da natureza e da tecnologia, ratificando que, no Semiárido, conviver com a seca é possível.
Para retirá-la, é preciso vencer uma camada profunda de rocha e perfurar o poço. Mesmo assim, a água que brota é salobra. Muito salgada para beber: são até 7 gramas de sal por litro. Imprópria para o consumo humano.
Para a felicidade do nordestino, acostumado a enfrentar dificuldades extremas, um equipamento de baixo custo e fácil manutenção, capaz de transformar água salobra em água potável, vem ajudando a mudar a realidade de centenas de famílias no Semiárido nordestino. O dessalinizador movido a energia solar funciona como uma miniestufa abastecida com água salobra proveniente de poços. Com o calor do sol, a temperatura da água pode atingir até 70 °C.
A tecnologia prática e barata, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), liderada pelo professor Francisco José Loureiro Marinho, está transformando essa realidade em regiões do Estado proporcionando melhorias no campo. Já virou fonte de desenvolvimento na região.
Feito de vidro, cimento e lona, o dessalinizador aproveita o calor do sol — abundante na região — para aquecer a água salobra, garantindo acesso à água para o consumo doméstico e a produção agroecológica.
Batizada de “Dessalinizador solar para fornecer água potável para as famílias da zona rural do Nordeste brasileiro”, a tecnologia beneficia atualmente cerca de 200 famílias em cidades do Semiárido paraibano, onde, historicamente, os índices pluviométricos são considerados baixos, segundo a Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado (Aesa). A iniciativa já garante água de qualidade a mais de 80 mil paraibanos.
Desde que entrou em funcionamento, o equipamento se tornou uma alternativa para matar a sede de homens e mulheres do campo em tempos de crise hídrica. O modelo foi projetado em uma caixa construída com placas pré-moldadas de concreto, com cobertura de vidro que permite a passagem da radiação solar.

Simples de ser instalado, o equipamento entra em ação quando a água do poço é canalizada para a estufa, onde passa por um processo de evaporação que separa o sal da água. O vapor gerado sobe, condensa na cobertura de vidro e escoa por canaletas, transformando-se em água própria para o consumo humano. Depois de coletada, a água ainda passa por um processo de filtragem antes de ser armazenada e chegar ao pote.
O sal que não evapora fica depositado na lona, conforme explica o professor Francisco Loureiro. Como, nessa tecnologia, nada se perde e tudo é aproveitado, o sal retirado da lona ainda pode ser utilizado na alimentação dos animais.
Conhecer essa realidade de perto é testemunhar como a ciência, aliada a práticas sustentáveis, pode transformar ambientes secos em paisagens verdes e o sal em água doce, fazendo brotar uma nova consciência no campo.
No último sábado (08), o PB Agora esteve na propriedade do agricultor Severino Tavares de Sousa no Sítio Alto dos Cordeiros, zona rural de Queimadas, no Agreste do Estado. O local é um dos que menos chove no país. Os índices pluviométricos são baixos. Em alguns anos, os barreiros chegam a secar.
Situado sob uma serra, onde os ventos são fortes durante boa parte do ano e o clima é seco, principalmente no verão, o Sítio Alto dos Cordeiros virou uma espécie de “oásis” de água doce desde que o poço artesiano foi perfurado e as casinhas foram construídas. No local, vivem cerca de 10 famílias. As casas ficam distantes umas das outras, e os pontos de acesso à água potável — quando há — também ficam longe.

O agricultor Severino Tavares é um dos moradores mais antigos da localidade. Conhece todas as famílias da região — e pelo nome. Ao longo da vida, enfrentou várias secas, algumas delas rigorosas.
Aos 64 anos, todos vividos na roça, Severino passou boa parte da vida peregrinando em busca de água potável. Antes, precisava percorrer longas distâncias para conseguir água. Foram anos de luta. Para abastecer a cisterna, acordava cedo e caminhava quilômetros em busca do recurso.
Com os baldes em cima de uma carroça puxada por um burro, Severino começou a buscar água aos 7 anos de idade. As lembranças ainda estão vivas na memória do agricultor.
A jornada em busca de água era pesada. Severino dividia o tempo entre o trabalho na roça, os estudos e a busca por água.
A realidade mudou com a instalação do dessalinizador solar, levado para a região pelo pesquisador Wanderley Feitosa Viana, enteado do agricultor. O primeiro passo foi perfurar o poço e, em seguida, construir as cinco casinhas. Em Queimadas, é possível perfurar poços em camadas profundas de rocha. Na propriedade de seu Severino, o poço tem 40 metros de profundidade, mas a água que brota do subsolo é salgada.

A chegada do equipamento causou uma revolução na localidade, onde foram instaladas cinco unidades, com capacidade de produzir até 65 litros de água por dia — quantidade suficiente para abastecer as 10 famílias.
Com a instalação dos cinco dessalinizadores, os tempos de peregrinação em busca de água terminaram. Agora, ele pega o líquido no próprio quintal, a poucos metros da cozinha. E é água doce.
“Esse dessalinizador tem nos ajudado muito. Agora a gente não precisa mais acordar cedo para ir buscar a água longe, na carroça de burro. E a água é boa, de qualidade. Para a gente, esse equipamento é uma maravilha “, contou.
Em tempos de El Niño, com previsão de secas e sol escaldante, o dessalinizador solar, de baixo custo de implantação e manutenção, possibilita, segundo Wanderley Feitosa, segurança hídrica por meio do fornecimento de água potável. Além disso, promove transformação social por meio da gestão dos recursos hídricos locais, utilizando a energia solar — limpa e renovável — para a produção de água potável e contribuindo para a convivência com o Semiárido.

Ele contou que, no começo, tinha a missão de fazer a limpeza dos primeiros equipamentos instalados em Remígio. Nesse período, ajudou a construir várias “casinhas” e a instalar os dessalinizadores. Segundo ele, a iniciativa vem transformando gradativamente a realidade na zona rural de municípios paraibanos.
“Há diversas maneiras de construção, por alvenaria com tijolos ou com placas pré-moldadas. A diferença está apenas no tempo de execução. As partes mais difíceis de construir são a calha, a bandeja e a entrada das bandejas, mas, tirando isso, qualquer pessoa sem treinamento consegue construir. Uma produção de cinco unidades, a gente gasta dois dias para fazer as formas e dois dias para montar o equipamento”, contou.
Formado em Agroecologia, com mestrado na área e doutorando em Engenharia Ambiental, Wanderley Viana está no projeto desde 2013. Ele enxergou no equipamento uma forma de melhorar a qualidade de vida de seus familiares.
Deu certo. Todos abraçaram a ideia.
Para ele, os dessalinizadores solares são importantes na região semiárida, principalmente nas cidades distantes do rio, onde as águas são salinas, o que inviabiliza a população a consumir a água da forma que ela vem.
“A produção desse dessalinizador que são 10 casinhas Ela pode chegar até 160 litros de água diário. Aqui beneficia a pelo menos 5 famílias que vêm buscar essa água. Uma água de excelente qualidade que tem que passar pelo filtro de barro ou pelo pote de barro para ela mineralizar, que ela vem destilada. Água puríssima e de muito boa qualidade. Isso tem mudado muito a vida da gente” contou.
Do poço para o pote
É na cozinha, diante do pote de barro, que a agricultora Luiza Gabriela Feitosa, de 56 anos, celebra a chegada do dessalinizador solar. Isso porque o pote de barro tem um papel importante: ajuda a água a recuperar os sais minerais, devolvendo-lhe um sabor mais agradável.
A água é cristalina. Puríssima e saborosa. Quase mineral. Luíza Gabriela bebe com gosto. Orgulhosa do filho Wanderley, que trouxe a tecnologia para a localidade, ela garante que poucas vezes na vida tomou uma água com tanto sabor. Faz questão de “enfiar” o copo no pote e levá-lo até a boca.

“É uma água muito saborosa. Parece mineral. Todos nós gostamos” conta.
Como nordestina, Luíza Feitosa também peregrinou muito em busca de água. Por isso, o líquido que hoje chega puro e saboroso ao seu pote tem tanto valor. Quando conseguia água em um barreiro, ela não era de qualidade. Era barrenta. Imprópria para o consumo humano.
A água que brota do poço cavado por seu Severino, que passa pelo dessalinizador, escoa por canaletas e se transforma em água própria para consumo humano, é compartilhada. Todos na localidade tem acesso ao líquido. Só precisam pedir. E buscar.
A agricultora Severina Marinha do Nascimento, conhecida como Preta, já se acostumou a buscar água dessalinizada. Ela mora a poucos metros da casa de seu Severino e garante que a chegada da tecnologia resolveu um problema antigo na região. Sem água encanada em casa, ela passou a depender da água produzida pelo dessalinizador, utilizada para beber e cozinhar.
“Durante muito tempo a gente ia busca água distante. Era uma luta grande. Agora com esse dessalinizador a gente pega a água na casa do seu Severino. Água de qualidade” disse.

O drama do seu Reginaldo e a nova realidade
Quando proferiu a célebre frase “O Sertão vai virar mar”, no século XIX, registrada no livro A Noite das Grandes Fogueiras, de Domingos Meirelles, o líder religioso Antônio Conselheiro não poderia imaginar que aquela “profecia” um dia se tornaria realidade.
Relacionada à experiência de Conselheiro durante a Guerra de Canudos, conflito ocorrido no Sertão da Bahia, a profecia ecoa até hoje, reforçada pela música de Sá e Guarabyra, em algumas regiões do Nordeste, não apenas no Sertão, mas também em áreas historicamente castigadas pela seca.
Só quem já viveu o drama da seca sabe o valor do equipamento. O agricultor Reginaldo Bezerra de Lima, morador de Caraúbas, no Cariri paraibano, já enfrentou várias secas, algumas delas rigorosas, que dizimaram o gado e deixaram açudes e barreiros secos.
Reginaldo Bezerra lembrou das secas severas que já enfrentou, e o drama para conseguir água. Tudo era difícil. Muita luta. Um sofrimento.
Ele lembrou que em anos de secas prolongadas, a exemplo do que ocorreu nos anos 1980, a população chegou a disputar água com os animais. Uma luta pela sobrevivência. E a água, tão preciosa na região, era de péssima qualidade.
“Nós já enfrentamos muito período de estiagem desde a minha infância. Eu lembro aquela seca que teve nos anos 80, onde a gente disputava água com os animais. Quando a gente tentava pegar água nas cacimbas, a gente disputava com os guará, com a raposa, com o sapo. Á água era barrenta que tinha gosto de urina de vaca. A gente tinha que beber porque não tinha opção. A opção que tinha era aquela. A seca de 1993 que foi o ano que não deu uma única chuva aqui nessa região, foi uma seca extremamente severa, os anos seguintes 98, 99, 97, 2000, 2001, 2002, 2003 foi outro ciclo seco que enfrentamos” lembrou Reginaldo Bezerra.
A água de péssima qualidade também afetava a saúde da população. A esposa de Reginaldo, a agricultora Rosinete de Freitas Bezerra, revelou que na época em que precisava buscar água em cacimbas e barreiros, ela e sua família sofriam com dor de barriga. E outras doenças.
“Era só Deus mesmo para a gente poder sobreviver naquele tempo com água de péssima qualidade” lembrou.

Durante muito tempo, o agricultor dependeu de programas emergenciais do governo, especialmente da Operação Carro-Pipa, coordenada pelo Exército, que leva água ao Semiárido nordestino.
A mudança veio com a instalação dos equipamentos solares. Somente em Remígio foram instalados 10 unidades. Servem para abastecer toda comunidade. A família de seu Reginaldo é uma das beneficiadas. E ele está feliz com a chegada da novidade.
Além da água, seu Reginaldo também aproveita o sal que fica acumulado. Para isso construiu uma cisterna que está com 500 litros de sal armazenado. Misturado com ração, o sal é destinado para o gado.
O agricultor classificou o dessalinizador como uma tecnologia funcional em que o homem do campo fica independente de políticas públicas de programas de governo como o carro pipa.
“Então nós temos a autonomia de água de cozinhar e beber no semiárido paraibano. Isso é uma dádiva de Deus e da tecnologia com sabedoria do homem do campo da cidade” descreveu.
O sentimento é o mesmo da agricultora Alexandra da Silva. Moradora do Sítio Luiz Gomes, na zona rural de Caraúbas, ela contou que o dessalinizador transformou a realidade da região. Levou água de qualidade e prosperidade. A água para consumo, segundo ela, apenas no período de chuva. Nos demais meses do ano, a população sofre em busca de água de qualidade. Com a chegada do equipamento, esse drama acabou.
“Agora, com o dessalinizador solar, a gente tem uma água de excelente qualidade. Se não fosse essas casinhas, eu não sei o que seria da gente” disse.
Fiz uma revisão mais ampla, porque esse trecho reúne várias informações e depoimentos. Corrigi concordância, pontuação, regência, repetições, construções truncadas e alguns problemas de clareza, procurando preservar o conteúdo, os dados e o tom jornalístico. Também organizei melhor as transições entre os assuntos.
Fontes de recursos que viabilizam a tecnologia
A água existe. A tecnologia está disponível. Os recursos naturais são abundantes. Mas nada disso seria possível sem as fontes de financiamento. São elas que proporcionam aos pesquisadores e agricultores as condições necessárias para tornar concreta a utilização dessa tecnologia revolucionária.
Desde a sua concepção até o momento, mais de R$ 500 mil já foram captados por meio de editais e outras fontes de financiamento para viabilizar a tecnologia e garantir o acesso à água potável no campo.
A iniciativa já recebeu financiamento do Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Fundação Banco Itaú, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Martha Medeiros, Engenheiros Sem Fronteiras, em parceria com o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), além do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), este último envolvido em alguns assentamentos na região do Seridó.
Somente com recursos do Banco do Brasil, foram construídas 20 unidades. Já por meio do edital do Fundeci e do Fundo de Sustentabilidade do Banco do Nordeste, a equipe conseguiu instalar 50 unidades na Paraíba. Historicamente, essas instituições vêm apoiando pesquisas e estudos socioeconômicos na região, por entenderem que a informação e o conhecimento, aliados à capacidade empreendedora e à infraestrutura econômica e social, constituem ferramentas essenciais para o desenvolvimento.
“A captação de recursos é fundamental e vem ocorrendo por meio de diferentes fontes de fomento, como o CNPq, a Fundação Banco Itaú e outras fundações. Agora, um projeto desse precisa de novas formas de financiamento para se transformar em uma política pública, como aconteceu com o projeto de construção de 1 milhão de cisternas. Por que não construir 100 mil dessalinizadores? Isso, com certeza, vai ajudar a fixar o homem no campo, desinchar as cidades e gerar sustentabilidade e qualidade de vida no campo. Fixar o homem no campo é fundamental para que o agricultor se torne um ativo na sociedade, produzindo e gerando renda para todos”, destacou o professor Francisco Loureiro.
Com os recursos já conquistados, foram construídas as “casinhas” e realizados treinamentos e capacitações em parceria com a Associação dos Profissionais em Agroecologia (APA), organização formada por egressos do curso de Agroecologia do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais. Esse trabalho tem à frente o pesquisador Wanderley Feitosa Viana.

A primeira experiência em escala ocorreu em um assentamento rural no município de Remígio, com recursos do CNPq, onde foram construídas dez unidades no Assentamento Corredor.
“Com esses recursos, fizemos a adaptação de materiais e técnicas. Fizemos piso de alumínio, de cimento, e o sal corroía tudo. Um agricultor de Remígio teve a ideia de usar lona, pois disse que, no mercado, o sal é vendido em saco plástico. E deu certo”, comemorou.
Para ampliar o acesso à tecnologia e captar novos recursos, foi criada a Associação dos Profissionais em Agroecologia. A entidade, presidida por Wanderley Feitosa Viana, é responsável por captar recursos em diversas fontes, como agências federais de fomento e programas de incentivo à pesquisa.
“A nossa equipe escreve, em média, dois projetos por ano para o Banco do Brasil e o Banco do Nordeste, que lançam editais regularmente. Esses dois bancos fazem seleção e dão prioridade a projetos novos. Também existem outros editais de ONGs e empresas privadas que entram em contato para realizar capacitações em comunidades. Eu e o professor Chico, com o nosso próprio dinheiro, estamos construindo outro modelo de dessalinizador solar, móvel e menor, para testar em comunidades isoladas”, explicou Wanderley.
Ele garante que, a partir da captação de recursos, será possível expandir a tecnologia para outros estados, como Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
“Estamos buscando novos fomentos para ampliar a área de abrangência do programa”, destacou.
O primeiro modelo, produzido em Campina Grande, custou cerca de R$ 3 mil. Já na cidade de Icapuí, no Ceará, a unidade ficou em torno de R$ 4,5 mil, porque a associação de moradores da comunidade solicitou que todos os materiais fossem adquiridos localmente, para que os moradores pudessem acompanhar e compreender todo o processo, desde a compra até a construção e a capacitação.
O pesquisador Wanderley explicou que o valor da tecnologia varia, pois depende de cada região e dos fornecedores dos materiais utilizados na construção da parte de alvenaria.
Como forma de facilitar o trabalho, a coordenação do projeto elaborou uma cartilha com o passo a passo da instalação do equipamento. O material reúne informações e ilustrações que detalham todo o processo de construção, incluindo os materiais utilizados e a quantidade necessária para cada dessalinizador.
Tecnologia ganhará novo modelo móvel
Este ano, diante do impacto positivo que tem causado na agricultura familiar, a tecnologia passará por um processo de aperfeiçoamento. Um novo modelo está sendo desenvolvido. Em um futuro próximo, o equipamento deixará de ser fixo para se tornar móvel. O ajuste no projeto tem como objetivo tornar a tecnologia mais eficiente e ampliar o número de famílias atendidas.

A novidade promete revolucionar ainda mais a vida no campo e possibilitar que os agricultores transportem o equipamento de um lugar para outro, captando água de qualidade em diferentes localidades.
O professor Francisco Loureiro explicou que a ideia inicial surgiu diante da necessidade de facilitar o acesso à água potável para famílias que vivem em regiões de escassez hídrica. O dessalinizador solar utiliza materiais comuns no cotidiano dos agricultores, como vidro, cimento, lona e canos para a tubulação. Tudo barato e ao alcance de todos.
O equipamento foi desenvolvido a partir de uma experiência envolvendo estudantes do curso de Agroecologia e membros da Cooperativa de Trabalho Múltiplo de Apoio às Organizações de Autopromoção (COONAP), reunindo alunos e agricultores. Cada uma das “casinhas” pode produzir até 16 litros de água doce por dia. Água potável e de qualidade.

O aparelho é de baixo custo e foi desenvolvido para utilizar a energia solar na retirada do sal da água por meio da evaporação.
A manutenção do sistema é feita pelas próprias famílias, que precisam apenas limpar a lona para que o equipamento volte a funcionar normalmente.
“Os processos de dessalinização e desinfecção da água ocorrem quando a alta temperatura no interior do dessalinizador provoca a evaporação da água, que entra em contato com a superfície resfriada e faz a condensação, retirando os sais antes existentes”, explicou o professor Francisco Loureiro.
O professor disse que o grande legado da tecnologia é garantir que as famílias continuem sobrevivendo de suas terras, a partir de alternativas ecológicas e técnicas, sem agredir o meio ambiente.
Neste ano de 2026, ainda sob os ventos da COP30, a procura pela tecnologia cresceu significativamente, por se tratar de um método simples, de baixo custo e de fácil manutenção. A pretensão do professor Francisco Loureiro é transformar a iniciativa em uma política pública, como aconteceu com a construção de cisternas.
Com custo entre R$ 4 mil e R$ 5 mil para a produção de todo o equipamento, incluindo uma “casinha” feita de pré-moldados de alvenaria, o projeto já instalou cerca de 200 dessalinizadores em 10 cidades da Paraíba e também em outros estados.
No total, conforme explicou o professor Francisco Loureiro, foram instalados dez equipamentos em Remígio; dez em São Vicente do Seridó; dez em Cubati; 70 em Caraúbas; 15 em Monteiro; dez em Soledade; 20 em Cuité; cinco em Campina Grande; cinco em Queimadas; dez em Caraúbas e 21 em Santa Luzia. Também foram instalados dez dessalinizadores em Pernambuco e um no Ceará.

Os assentamentos Belo Monte I, em Pedra Lavrada; Belo Monte II, em Cubati; e Olho D’Água, em São Vicente do Seridó, foram os primeiros beneficiados com os equipamentos.
O professor Francisco Loureiro explicou que o equipamento já se tornou uma tecnologia social e tem mudado a realidade da região e a vida de agricultores paraibanos, além de impulsionar a economia local.
O objetivo é ofertar água de qualidade para famílias que convivem com a escassez hídrica. Em algumas regiões do Semiárido, a água dos poços contém até sete gramas de sal por litro, enquanto o limite para ser considerada potável é de meio grama por litro. Além de desenvolver a tecnologia, o projeto tem ensinado agricultores a construírem os próprios dessalinizadores solares, utilizando produtos simples encontrados no próprio campo.

Um grito de independência dos agricultores
Para o professor Francisco Loureiro, os dessalinizadores solares funcionam como uma espécie de grito de independência dos agricultores em relação aos caminhões-pipa.
“Muitas vezes, o caminhão-pipa não fornece água em quantidade e qualidade adequadas, e o agricultor passa a ser um passivo para a sociedade. No momento em que ele tem água para beber de excelente qualidade e, por meio de outras tecnologias, como barragem subterrânea, cisterna de grande porte, poços etc., tem água para suas necessidades pessoais e de irrigação, ele passa a ser um ativo na sociedade”, destacou.

O projeto é uma adaptação da tecnologia desenvolvida pelo Irmão Urbano, um frade redentorista. A princípio, ela tinha como objetivo apenas dessalinizar a água para canteiros econômicos destinados ao cultivo de hortaliças. Não era voltada para a dessalinização de água para consumo humano.
“Nós adaptamos a tecnologia para conseguir água potável. Trouxemos o projeto para a universidade porque acreditamos que ele é aplicável à zona rural e pode transformar a vida das pessoas que necessitam de água potável”, explicou o professor Marinho.
A construção dos dessalinizadores solares, utilizando um recurso natural abundante na região, mostra como uma ideia simples, sustentável e econômica pode tornar viável a convivência do homem com a seca. Em tempos de crise hídrica e de fenômenos naturais como o El Niño, a tecnologia contribui para melhorar a qualidade de vida no campo e impulsionar a economia da região

PB Agora
Texto e fotos: Severino Lopes
Edição: Márcia Dias
Edição de imagem: Pedro Victor
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