Por um cabedelense de nascença, alma e memória
Prefeito, se o senhor me permitir, gostaria de lhe contar um segredo.
Cabedelo não cabe em papel timbrado nem em ata de reunião. Cabedelo é um sopro de maresia misturado com cheiro de bolo de milho nas festas de Santa Catarina. É o grito rouco de “segura o boi!” quando o bicho fugia em Camalaú e botava o povo pra correr. E o senhor, bem… o senhor não estava lá.
O senhor nunca tomou um garapão na barraca de Bindalo, de frente pra FEBEMAA, e isso, acredite, diz muito mais do que parece. Nunca sentou na calçada pra esperar a sessão no Cinema Apolo de Seu Vavá, nunca guardou um trocado pra comprar anzol ou pindaúba na loja de Seu Josias, que ficava por atrás da Matriz. Nunca ouviu a história do Batatão nos luais que a cidade tinha, dos embalos de sábado a noite no Casarão do Mago, e duvido que saiba o que significou o Rancho Forró do Povo pra nossa gente de Cabedelo.
E nem vou falar das Frenéticas, pois ainda há remanescentes desse seleto grupo de dança e amigos que ainda fazem parte da sua gestão, e que assistem calados, de cabeça baixa, a toda essa agressão à nossa história.
O senhor talvez ache graça quando digo que nunca gritou pro carroceiro Lagartixha perguntar pelo rabo, aguardando a notória resposta. Mas aqui a gente ri disso até hoje, porque é dessas pequenas coisas que se constrói o senso de pertencimento. E o senhor, me desculpe, não pertence.
O senhor nunca entregou uma senha ao fiscal Amancio no ônibus da Roger pra ele saber se a gente ia até o Poço, Jacaré ou João Pessoa. Nunca ouviu o Padre Alfredo Barbosa celebrar uma missa com voz forte e firme, nem viu as noites da semana santa se transformarem em teatro vivo com a Paixão de Cristo narrada por Doutor Marcelo no Imaculada Conceição.
O senhor, prefeito, nunca ouviu o estrondo do BIG SOM ou do STATUS SOM, com Nenem e Rivelino, levantando poeira nos bailes e muito menos sabia onde ficava o Camalaú Clube. Nunca se sentou numa mesa do Nila Rocha pra comer em silêncio com sabor de história. Nunca sentiu a cidade tremer com as batucadas tradicicionais: Arrocha o Aro, Carga Pesada, A Rola Voo, entre muitas e que não eram só batuque, eram identidade marchando pela rua.
Nunca viu um campeonato de surf no dique, com Badeco e Fábinho Gouveia, nem uma apresentação do grupo Arrastão ou uma peça do mestre Altimar Pimentel. E se nunca ouviu falar disso tudo, o que o senhor faz, afinal, governando o que não conhece?
O senhor nunca viu um navio de caça à baleia atracar em Costinha, nunca tomou um sorvete na sorveteria de Seu Manoel Coelho, e se quer um teste definitivo: o senhor não conheceu Sapo, Vajão, Japão da Loura, Zé Doidinho, Zé Castor, Seu Princesa, Eva, João Rezador, João Russo, Bindalo, e seu Marone com sua fama que só um genuíno cabedelense sabe… De fato, o senhor não sabe quem são. E nem vai saber.
E talvez não saiba também o que foi o MUSIPOC, um grito artístico de resistência. Talvez ache estranho o cabo de guerra entre Estivadores e Arrumadores no Campo Francisco Figueiredo, mas pra nós, era mais do que uma disputa: era comunidade em ação.
Prefeito, o senhor chegou agora, mas Cabedelo está aqui faz tempo. O senhor governa, sim, mas não representa. Porque Cabedelo é feita de histórias que o senhor nunca viveu e de gente que o senhor insiste em deixar de fora. Enquanto nossos filhos atravessam a ponte em busca de emprego, o senhor importa apadrinhados que nunca viram um boi no meio da rua quando fugiam da “matança” em Camalaú ou ouviram a Ritmo do Salgueiro, do eterno Zé Doidinho, batucar numa noite de carnaval.
O senhor comanda um corpo sem alma. E o povo sente. Sente que é desprezado por quem nem sequer conhece seus mortos, seus símbolos, seus heróis anônimos.
Por isso, deixo aqui um apelo, mas não um pedido humilde, um alerta de filho para quem apenas ocupa um cargo: Respeite nossa história, ou Cabedelo lhe rejeitará como o corpo rejeita um corpo estranho.
Porque cidade não é apenas território, é memória.
E Cabedelo, senhor prefeito, tem memória de ferro e coração de maré cheia.
E já começa a encher de novo.
Assinado,
Um filho da terra que nunca precisou de crachá para pertencer.
Caramba meu amigo Ivaldo…você me fez chorar meu amigo! Essa é a nossa história, assim como você, eu conheço tudo isso! Eu pertenço a Cabedelo, nascido e criado nesses rincões, fomos crianças e adolescentes felizes meu amigo…graças a Deus
Saí muito cedo daí, mas, a maoiria do que falou lembro e falei. Portanto, vc em sua narrativa está certíssimo. Cabedelo não é só um papel timbrado. É vida, alma, lembranças fortes. Parabéns.
So quem é de Cabedelo e conhece a história dessa linda cidade é que chora ao ler esse seu texto amigo. Parabéns.
Parabéns meu amigo. Ficou muito bom e saudosista.