A narrativa apresentada pela presa Ariadna Thalia Cordeiro Barbosa, utilizada como um dos pilares da investigação sobre a infiltração de facções na máquina pública de Cabedelo, traz um detalhe que chama atenção e pode gerar forte repercussão política para o ex-prefeito André Coutinho.
Segundo a própria oitiva, o faccionado identificado como Tanison teria permanecido ligado à estrutura pública e recebido aumento salarial como parte de uma suposta compensação financeira articulada entre integrantes da gestão municipal e membros da facção criminosa. O depoimento afirma que, após a Operação En Passant, pessoas ligadas ao grupo criminoso que permaneceram contratadas teriam recebido reajustes salariais para alimentar uma espécie de “folha paralela” destinada à organização criminosa.
O ponto que altera significativamente o eixo político da narrativa surge quando os dados oficiais do sistema SAGRES são confrontados com o depoimento.
Levantamento obtido no portal do Tribunal de Contas mostra que TANISON DA SILVA SANTOS foi admitido na Prefeitura de Cabedelo em 2 de janeiro de 2025 para o cargo de Assessor de Suporte Operacional e, posteriormente, em 2 de abril de 2025, passou a ocupar o cargo de Assessor Técnico Especializado.
Os valores registrados revelam evolução salarial justamente durante a gestão de André Coutinho:
- janeiro, fevereiro e março de 2025: R$ 2.718,00
- abril de 2025: início do novo vínculo com remuneração de R$ 4.350,00
- junho de 2025: remuneração chegando a R$ 7.912,50
O dado ganha ainda mais relevância porque o aumento citado na oitiva ocorreu meses antes da posse de Edvaldo Neto na Prefeitura de Cabedelo, ocorrida apenas em 15 de dezembro de 2025.
Além disso, segundo informações administrativas levantadas nos bastidores da própria prefeitura, Tanison acabou sendo posteriormente exonerado já durante a gestão interina de Edvaldo Neto, fato que contrasta diretamente com a tese de continuidade irrestrita do suposto esquema narrado pela depoente.
Na prática, os registros oficiais apontam que o único aumento efetivamente identificado nos dados públicos, entre 2025 e 2026, ocorreu ainda sob a administração de André Coutinho, justamente o gestor apontado pela própria Operação En Passant como alvo das investigações envolvendo suposta influência de facções criminosas na estrutura pública municipal.
A análise cronológica dos fatos começa agora a provocar novos questionamentos políticos e jurídicos sobre quem realmente autorizou, ampliou e manteve os vínculos administrativos citados dentro da própria investigação.