Júnior Datelle: entre a lealdade e o labirinto da Xeque-Mate

Júnior Datelle: entre a lealdade e o labirinto da Xeque-Mate

Segunda matéria da série “7 anos da Xeque-Mate”, que revisita os principais personagens e bastidores da maior operação de combate à corrupção da história de Cabedelo.

A Operação Xeque-Mate, que revelou o submundo da corrupção entranhada na administração pública de Cabedelo, também trouxe à tona personagens que viveram o dilema entre a fidelidade política e a sobrevivência jurídica. Um deles é Rosildo Pereira de Araújo Júnior, conhecido nos bastidores como Júnior Datelle, atual vereador e uma das peças-chave nas investigações conduzidas pelo GAECO e pela Polícia Federal.

Embora tenha integrado o grupo político do então prefeito Leto Viana, apontado como chefe da organização criminosa (ORCRIM), Júnior Datelle acabou assumindo outro papel na trama: o de colaborador premiado. Suas declarações ajudaram a decifrar como funcionava a engrenagem de poder que manipulava os dois principais poderes de Cabedelo, Executivo e Legislativo, em um conluio sem precedentes na história política da cidade.

Em depoimento formal ao Ministério Público e à Polícia Federal, Rosildo revelou que Leto Viana, mesmo preso, continuava dando ordens políticas de dentro do 5º Batalhão da Polícia Militar, articulando, através de intermediários, a formação de uma nova mesa diretora na Câmara Municipal e a escolha de Vítor Hugo como prefeito interino. E o emissário dessa missão era ninguém menos que Fabrício Magno, então secretário de Comunicação, já denunciado por integrar a ORCRIM.

Segundo o trecho da denúncia:

“o colaborador Júnior Datelle informou que Fabrício Magno esteve diversas vezes no 5º Batalhão para visitar o prefeito Leto Viana, articulando, por orientação dele, como seria a nova administração municipal enquanto estivesse preso”.

Apesar de sua participação inicial nos bastidores do grupo, Rosildo acabou se tornando uma testemunha essencial. Seu relato permitiu à Polícia Federal interceptar e acompanhar, em tempo real, os movimentos que culminaram na famosa reunião do restaurante Picuí, em Intermares, onde vereadores e suplentes definiram os nomes que assumiriam o comando político da cidade, garantindo a continuidade do esquema.

O então ex-vereador, que conhecia bem as engrenagens do poder local, ajudou a confirmar as suspeitas de que a ORCRIM buscava se reorganizar mesmo após a prisão de seus líderes, mantendo o controle político e financeiro sobre Cabedelo. Seu depoimento corroborou ainda que houve promessa de vantagens e cargos para quem se alinhasse ao grupo, em uma tentativa desesperada de manter o poder.

Hoje, Datelle carrega a imagem de quem transitou entre dois mundos: o da conivência e o da confissão. Ainda que sua colaboração tenha sido decisiva para expor o sistema criminoso, a marca de sua participação inicial no esquema permanece. O nome “Júnior Datelle” ficará para sempre associado a uma das mais complexas e emblemáticas operações contra a corrupção política na Paraíba, um personagem que ajudou a montar e, depois, a desmontar o tabuleiro da Xeque-Mate.

Nas eleições municipais de 2024, Júnior Datelle voltou à cena política e foi eleito vereador de Cabedelo com 722 votos, demonstrando que, mesmo envolto em controvérsias, ainda conserva apoio popular e influência no cenário político local.

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Ivaldo Lima

Graduado em Sistema para Internet e Comunicação Social, Radialista com especialização em Marketing Digital!
Graduando em Teologia Católica.
Pós-Graduação em Doutrina Social da Igreja e Ordem Social!