Cabedelo e João Pessoa, cidades irmãs geograficamente, parecem agora entrelaçadas por um outro vínculo: o intercâmbio silencioso de cargos comissionados entre os aliados do poder.
No início de 2025, dois atos administrativos aparentemente isolados passaram despercebidos por boa parte da população. Mas, somados, revelam um retrato inquietante da forma como a política local tem operado os bastidores do privilégio.
De um lado, Nathalia Palmeira Silva Coutinho, esposa do prefeito de Cabedelo, André Coutinho, foi nomeada no dia 1º de janeiro de 2025 como Diretora Financeira da Câmara Municipal de João Pessoa. Remuneração? Nada modesta: R$ 20 mil por mês, como revelam os dados do SAGRES/PB.
Do outro lado do tabuleiro, logo no dia 2 de janeiro, a Prefeitura de Cabedelo acolhe em seus quadros Giselly Kássia Mamede Santana de Lira, namorada do presidente da Câmara Municipal de João Pessoa, com o cargo de Assessor Técnico Especializado e salário bruto inicial de R$ 6.500.
Duas nomeações. Dois vínculos íntimos com líderes políticos. Dois cargos comissionados, sem concurso público. E, curiosamente, com datas sequenciais.
Seria apenas uma coincidência? Ou estaríamos diante de um clássico caso de nepotismo cruzado, prática que embora difícil de comprovar judicialmente, é reconhecida popularmente como um dos artifícios mais antigos para burlar a moralidade pública?
A matéria do portal Política PB já havia acendido o alerta ao denunciar “A Escalada do Privilégio”, destacando a contratação da esposa de André Coutinho na Câmara de João Pessoa. O que não se sabia até então — mas os documentos oficiais revelam — é que a contrapartida silenciosa veio logo no dias depois, com a nomeação da namorada do presidente da Câmara pessoense.
Com isso, as duas famílias se veem confortavelmente instaladas no serviço público, enquanto o cidadão comum, sem apadrinhamento político, segue enfrentando filas em postos de saúde, ônibus superlotados e ruas esburacadas.
O mais perturbador é o silêncio. Nenhuma justificativa pública convincente. Nenhuma explicação que resista ao olhar crítico de quem acredita que o serviço público deve ser movido por mérito, e não por vínculos afetivos ou conchavos institucionais.
A gestão de André Coutinho, com 5 meses, começa a se desenhar sob as sombras das práticas mais arcaicas da política brasileira: a troca de favores entre gabinetes. Cabedelo, mais uma vez, parece servir de palco para experimentos de conveniência.
Fica a pergunta, que cada cidadão deve ecoar: Quantos nomes ainda ocupam cargos públicos apenas por serem “alguém de alguém”?
Se a população não questionar, se os órgãos de controle não se manifestarem, essa “sincronia de interesses” vai continuar — elegante no papel, mas profundamente ofensiva na realidade.
Em tempo: A produção apurou que Giselly Kássia Mamede Santana de Lira, nomeada em janeiro, teria solicitado exoneração do cargo em fevereiro de 2025. A informação, embora não altere os fatos relativos à nomeação, é relevante para fins de transparência e registro completo das informações.










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