Por Ivaldo Lima – Investigativo / Política PB
Um movimento tão ousado quanto perigoso chamou a atenção da Polícia Federal: documentos internos apreendidos na Operação En Passant revelaram que o prefeito eleito de Cabedelo, André Coutinho, e sua assessora de confiança, Thayane Bezerra, podem ter montado um dossiê informal contra uma juíza responsável pela condução da Operação En Passant, que já investiga a ligação de Coutinho com organizações criminosas e compra de votos.
A reportagem teve acesso com exclusividade a registros periciados no aparelho celular dos investigados, onde aparecem trocas de mensagens, arquivos processuais e atos judiciais relacionados diretamente à magistrada.
A ação, segundo investigadores ouvidos sob reserva, não configura simples monitoramento processual, mas uma tentativa deliberada de mapear a atuação da juíza.
O passo a passo de um plano oculto
Entre os dias 23 e 25 de outubro de 2024, André Coutinho encaminhou à sua assessora documentos que não apenas detalham a investigação, mas incluem portarias internas da Justiça Eleitoral e arquivos que circulavam entre advogados dos investigados. O material, de acordo com peritos, foi repassado à Thayane para tratamento e análise.
O teor das mensagens estariam indicando um levantamento detalhado da movimentação da magistrada — onde despacha, o que assina, em que ritmo age e até onde há possíveis “brechas” no processo. A assessora chega a receber arquivos diretamente ligados à tramitação do inquérito policial e, posteriormente, a conteúdos de bastidores do tribunal.
A Polícia Federal enxergou, neste modus operandi uma clara tentativa de intimidar ou monitorar a juíza que desafiou o esquema político denunciado do grupo político de André Coutinho.
Seria este o nascimento de um dossiê?
Essa é a pergunta que pairou (e deve continuar pairando) entre investigadores.
Por que o núcleo político de André Coutinho, já acuado por denúncias de envolvimento com o crime organizado, dedicaria tempo e recursos para fuçar a atuação de uma juíza? Qual seria o objetivo? Pressão velada?
“Não se trata de mera curiosidade processual. Há fortes indícios de uma estratégia de observação direcionada à pessoa da magistrada, e não apenas ao caso judicial em si”, afirmou uma fonte próxima da investigação.
Um Polícia Federal classificou o comportamento como “audacioso, atípico e potencialmente intimidatório”. Coisa só vista na Operação Calvário, onde uma investigação da PF apurou a criação de um dossiê, de forma privada, sobre agentes do Tribunal de Contas do Estado (TCE) para obtenção de informações pessoais e de familiares com o propósito de utilizar em desfavor, como uma forma de intimidação.
Em tempos normais, esse tipo de ação já seria grave. No atual contexto — com André Coutinho proibido de manter contato com outros investigados e submetido a recolhimento domiciliar noturno — a movimentação beira o temerário.
O método Coutinho: saber tudo, controlar tudo
Essa tentativa de coleta paralela de informações sobre uma juíza soma-se a outras práticas do núcleo investigado: contratações suspeitas, uso de cargos como moeda política, pressão sobre servidores e conexão direta com figuras-chave de uma facção criminosa. Tudo monitorado e denunciado pela Polícia Federal.
Agora, a linha foi cruzada: a mira estaria sobre o Judiciário.
Estaria André Coutinho tentando mapear o Judiciário para se antecipar às decisões?
Haveria uma rede de influência tentando identificar pontos vulneráveis entre magistrados?
Teria a juíza sido alvo de um plano de desestabilização silenciosa?
O Judiciário é a próxima vítima?
O episódio lança um alerta grave: se políticos encurralados por investigações começam a tentar “radiografar” juízes, o que mais estariam dispostos a fazer?
De uma coisa sabemos, a construção de “dossiês” pode ser o primeiro passo de um processo de intimidação institucional que ameaça o próprio Estado de Direito.
O caso revelou os riscos de se permitir que agentes políticos, acuados por investigações, ultrapassem os limites da legalidade em busca de meios para influenciar ou neutralizar o Judiciário. Se confirmando este grave comportamento, a prática de montar “dossiês” contra magistrados é mais do que uma afronta individual — é uma ameaça direta ao Estado de Direito.
Leia trechos dos documentos:











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